O leite tem sido a principal fonte de nutrientes para os mamíferos desde o nascimento até o desmame. Com proteínas, carboidratos e gorduras, sais minerais e vitaminas, ele fornece um suporte biológico completo e personalizado. Nesse período, a produção de lactase, a enzima que digere a lactose (principal carboidrato do leite) está funcionando plenamente. Até aí tudo bem. O problema vem em seguida. Após o período natural de desmame, espera-se que deixemos de ingerir leite e, assim, essa enzima deixa de ter serventia e acaba reduzindo sua produção. Isso se chama “hipolactasia primária” e afeta cerca de 51% da população do Brasil, com variações a depender da etnia. O restante da população seriam felizardos que tem uma mutação genética que persiste com a lactase na vida adulta, aptos para digerir lactose sem problemas.
Não podemos confundir com alergia à proteína do leite, que acomete lactentes e pode gerar sintomas tanto alérgicos (urticária, coceira) quanto gastrointestinais (diarreia, vômitos, cólicas). Nesse caso, deve ser excluído o leite da dieta. Já na intolerância à lactose, há um efeito dose-dependente, onde pequenas doses podem ser toleradas, mas grandes causam sintomas, como diarreia, flatulência, cólicas, dor abdominal e náuseas.
Para o diagnóstico, além da relação temporal com a ingesta de leite, faz-se necessário a realização de alguns testes. O mais comum é o teste oral de tolerância à lactose, onde se ingere lactose e são coletadas amostras de sangue seriadas para avaliar se a enzima está funcionante ou não. Há outro exame, menos disponível mas mais fácil, o teste respiratório de hidrogênio, onde também se ingere lactose, mas é analisado o hálito do paciente.
Após diagnosticada a intolerância, vem a parte do controle dos sintomas. A maioria dos pacientes consegue tolerar uma quantidade pequena de lactose (um copo de leite por dia). Se possível, preferir alimentos que constem “zero lactose”. No caso de ingestão de quantidades maiores de leite ou seus derivados como queijo e iogurte, há a opção de reposição de lactase por meio de remédios. Alguns pacientes, dependendo da restrição dietética, podem precisar repor também vitamina D e cálcio, importantíssimos para a prevenção de osteoporose.
Visto tudo isso, os felizardos que mantém a lactase funcionante na idade adulta, os “mutantes”, podem ingerir lactose sem medo. Já o resto da população terá que ter os cuidados descritos acima.

Gastroenterologista | CRM 44373 | RỌE 45831






